Quinta-feira, 5 de Março de 2009

ÍCONES

Jonathan Meades, no Intelligent Life (The Economist), edição da Primavera de 2009, escreve sobre ícone, que considera uma palavra omnipresente. Cada época usa um léxico próprio com algumas palavras a terem um emprego exagerado (hoje, no começo de uma frase, diz-se o irritante: "é assim"). Isto é, as palavras são sujeitas a modas, a morais, a etiquetas, à política e à música popular. Hoje, uma palavra tem uma vida quase desconhecida, amanhã, pode ser um termo influente. Há palavras pseudo-científicas que vêm dos dirigentes - empowerment, SWOT, driver, implementar. O jornalês pode ser outro tipo de linguagem.

Meades - que na mensagem sigo de muito perto - fala de ícones. O Oxford English Dictionary (OED) descreve icónico como "designando uma pessoa ou coisa vista como representativa de uma cultura ou movimento; importante ou influente num contexto particular (cultural)" [imagem de James Dean no sítio oficial do actor]. O dicionário da Porto Editora indica para icónico o "pintado ao vivo; conforme o modelo; pintado do natural". É evidente que a definição do OED já não é adequada, pois hoje ícone significa: notável, celebrado, promoção com zelo, reverenciado, longamente estabelecido, autêntico, facilmente reconhecível, memorável, importante, estimável, estereotipado, atípico, representativo, não habitual, popular, acessível, inevitável.
Vivemos, continua Meades, num mundo de celebração e moda permanente (hype). Tudo tem classe mundial, qualquer banda rock que sobreviva à depreciação narcótica ou a um empresário menos sério é lendária, os artistas são heróis. Cada cidade ou região tem um edifício de que se vangloria: torre, catedral, arranha-céus, câmara municipal. Para além da representação e do símbolo, estas estruturas têm utilidade: a estação do Oriente (Calatrava), o museu Guggenheim de Bilbau (Gehry), a ópera de Sidney (Jørn Utzon). A estas estruturas juntam-se imagens, esculturas, ícones.

Ícone deriva de uma palavra grega, significando semelhança, retrato ou imagem. Durante séculos associou-se a imagens de Cristo e o seu sofrimento e ressurreição. O ícone foi adoptado pela igreja oriental: imagens pintadas da Virgem a cores douradas e circulares. Na Anatólia, a cidade de Konya chamara-se primitivamente Iconium.

Implícito no uso moderno de icónico é a aspiração deliberada de investir coisas e pessoas com propriedades que se tornam milagrosas e sobre-humanas, mágicas e parecidas a deuses, Futebolistas, estrelas de cinema, celebridades, Jagger parece Pã, o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores da mitologia grega, Robert Plant lembra Dionísio, deus grego do vinho, das festas, do lazer, do prazer [Barack Obama, pelo artista de rua de Los Angeles Shepard Fairey]. A mudança do nome de Farrok Bulsana para Freddie Mercury foi uma antevisão do que aconteceu. A música popular criou estes deuses. Regimes como o Terceiro Reich (Hitler), União Soviética (Estaline) e China (Mao) foram teocracias (tipo de governo com influência religiosa): os ditadores procuraram matar Deus e substitui-lo.

Veja-se Hitler, continua Meades: o bigode, a saudação nazi, a madeixa no cabelo. A suástica é um logo, que não foi roubado deliberadamente à religião indiana do jainismo. Os comícios de Nuremberga eram rituais entre o marcial e o sagrado. Terríficos como uma cerimónia azteca e piegas como uma opereta amadora, esses comícios ficavam na retina de quem assistia a eles. Hojes, tais cenários são visíveis em palcos de estádios que acolhem as bandas de rock.

Os ícones significam quatro condições:

1) afectam-nos quer gostemos ou não. Exemplos: Picasso, Oprah Winfrey, Michael Schumacher,
2) a imagem transcende o seu objecto,
3) o sujeito é legível em termos de escrita visual. Exemplos: a silhueta de Napoleão com a mão dentro do capote; Chaplin com o chapéu, o bigode e a bengala, Jagger com o par de lábios [imagem pertencente ao Victoria and Albert Museum],
4) reconhecimento imediato, o que pede imutabilidade. Exemplos: garrafa de Coca-Cola, torre Eiffel, Big Ben, cabina telefónica e autocarro de dois pisos em Londres, Che Guevara, Marilyn Monroe, James Dean, Barack Obama.

O domínio da televisão durante meio século trouxe o declínio gradual da retórica e da oratória, substituindo-as pelo discurso naturalista em múltiplos media, com uma grande disseminação de imagens.
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publicado por industrias-culturais às 15:17
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