Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Cem Anos de Solidão

O livro narra a história da família Buendía a viver num sítio imaginário chamado Macondo. Cem Anos de Solidão foi um marco na literatura escrita por Gabriel García Márquez. Ele morreu hoje com 87 anos.
publicado por industrias-culturais às 21:50
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Cem Anos de Solidão

O livro narra a história da família Buendía a viver num sítio imaginário chamado Macondo. Cem Anos de Solidão foi um marco na literatura escrita por Gabriel García Márquez. Ele morreu hoje com 87 anos.
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Quinta-feira, 6 de Março de 2014

Guedes de Dion

Manuel Eduardo José Guedes Coelho Moreno Dion nasceu em Abril de 1922 em Lisboa. Adoptou o nome profissional de Guedes de Dion. Em 1950, publicou um livro intitulado Pedras de Fogo e Cinza, um interessante conjunto de contos que eu, na sua leitura, procurei desconstruir. O meu objectivo era compreender como se vivia em Lisboa naquela época.

São onze contos. O primeiro chama-se "Reportagem na Europa" e conta a história de um jornalista que viaja de navio dos Estados Unidos para a Europa e que lhe é dado conhecer um passageiro que procura encontrar a sua mulher em Espanha, que o havia abandonado e fugido com outro homem. "Carta para Lisboa", a segunda história, descreve a presença de um caixeiro-viajante no Alentejo e o seu conhecimento de uma família em cuja casa pernoita nesse dia e recebe o pedido da jovem adulta desse lar para ser portador de uma carta para o seu marido, então a trabalhar em Lisboa. O penúltimo conto, "Madrugada no casino", narra a história de um homem que, todas as noites, joga e perde muito dinheiro no casino e paga refeições a um número crescente de "amigos". As mulheres também o rodeiam. No final, o "engenheiro", como gostava que o tratassem, saiu do casino, acompanhado de dois polícias. Era, afinal, um burlão. Uma das histórias mais marcantes do livro é a que dá pelo título "O telefone tocou às 5", em que duas mulheres conversam, ou melhor, criticam a pequena alta sociedade em que se inserem. O conto é um retrato da frivolidade de uma camada social da Lisboa de 1950.

Mas o que me levou a escrever sobre o livro de um autor esquecido é o seu último conto: "Noticiário das Dez". O autor narra a história de Jorge, seu velho camarada da escola básica e do reencontro entre ambos quinze anos depois, já homens feitos e com uma história de vida completa. Jorge gastara mal muito dinheiro do seu pai, que o expulsou de casa e, com isso, o obrigou a uma árdua vida de trabalho. Empregado de mesa num paquete, quando regressou a Lisboa, procurou um novo emprego. Como que por milagre apareceu-lhe um lugar na secretaria de uma estação de rádio. Vencimento mensal: novecentos e cinquenta escudos. Rapidamente, as suas qualidades vieram ao de cima e concorreu e obteve um lugar de locutor na mesma estação. A prova de acesso ao lugar consistia em ler um texto em português, em francês e em inglês. Empregado de mesa habituado a servir gente de muitos países, as provas sairam-lhe muito bem. Pouco tempo depois, subia mais um degrau na responsabilidade da estação de rádio, em especial os serviços de exterior. No ano de 1945, um dos acontecimentos internos mais importantes seria uma cheia no Ribatejo, o que o obrigou a deslocar-se à lezíria para fazer a reportagem. Chegado à estação, todo molhado e sem ter jantado, ele ia ler o noticiário das dez, mas o director dispensou-o, passando o serviço a outro colega. Na viagem de táxi de regresso a casa, ele ouvia, pela voz do seu colega, que o seu pai, então administrador-geral do Banco Imperial, falecera. Desde que começara a trabalhar na rádio, ele quisera fazer as pazes e pedir desculpa ao pai, mas não conseguira. Agora, ia fazer-lhe a última despedida.

 

Guedes de Dion, com esta história, que pode ser lida no slideshare acima, mostra como funcionaria uma redacção de rádio, assente em serviço de notícias e reportagens. Guedes de Dion seria, naquela época, produtor radiofónico. Há um som de reportagem sua que pode ser ouvido aqui.
publicado por industrias-culturais às 14:40
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Guedes de Dion

Manuel Eduardo José Guedes Coelho Moreno Dion nasceu em Abril de 1922 em Lisboa. Adoptou o nome profissional de Guedes de Dion. Em 1950, publicou um livro intitulado Pedras de Fogo e Cinza, um interessante conjunto de contos que eu, na sua leitura, procurei desconstruir. O meu objectivo era compreender como se vivia em Lisboa naquela época.

São onze contos. O primeiro chama-se "Reportagem na Europa" e conta a história de um jornalista que viaja de navio dos Estados Unidos para a Europa e que lhe é dado conhecer um passageiro que procura encontrar a sua mulher em Espanha, que o havia abandonado e fugido com outro homem. "Carta para Lisboa", a segunda história, descreve a presença de um caixeiro-viajante no Alentejo e o seu conhecimento de uma família em cuja casa pernoita nesse dia e recebe o pedido da jovem adulta desse lar para ser portador de uma carta para o seu marido, então a trabalhar em Lisboa. O penúltimo conto, "Madrugada no casino", narra a história de um homem que, todas as noites, joga e perde muito dinheiro no casino e paga refeições a um número crescente de "amigos". As mulheres também o rodeiam. No final, o "engenheiro", como gostava que o tratassem, saiu do casino, acompanhado de dois polícias. Era, afinal, um burlão. Uma das histórias mais marcantes do livro é a que dá pelo título "O telefone tocou às 5", em que duas mulheres conversam, ou melhor, criticam a pequena alta sociedade em que se inserem. O conto é um retrato da frivolidade de uma camada social da Lisboa de 1950.

Mas o que me levou a escrever sobre o livro de um autor esquecido é o seu último conto: "Noticiário das Dez". O autor narra a história de Jorge, seu velho camarada da escola básica e do reencontro entre ambos quinze anos depois, já homens feitos e com uma história de vida completa. Jorge gastara mal muito dinheiro do seu pai, que o expulsou de casa e, com isso, o obrigou a uma árdua vida de trabalho. Empregado de mesa num paquete, quando regressou a Lisboa, procurou um novo emprego. Como que por milagre apareceu-lhe um lugar na secretaria de uma estação de rádio. Vencimento mensal: novecentos e cinquenta escudos. Rapidamente, as suas qualidades vieram ao de cima e concorreu e obteve um lugar de locutor na mesma estação. A prova de acesso ao lugar consistia em ler um texto em português, em francês e em inglês. Empregado de mesa habituado a servir gente de muitos países, as provas sairam-lhe muito bem. Pouco tempo depois, subia mais um degrau na responsabilidade da estação de rádio, em especial os serviços de exterior. No ano de 1945, um dos acontecimentos internos mais importantes seria uma cheia no Ribatejo, o que o obrigou a deslocar-se à lezíria para fazer a reportagem. Chegado à estação, todo molhado e sem ter jantado, ele ia ler o noticiário das dez, mas o director dispensou-o, passando o serviço a outro colega. Na viagem de táxi de regresso a casa, ele ouvia, pela voz do seu colega, que o seu pai, então administrador-geral do Banco Imperial, falecera. Desde que começara a trabalhar na rádio, ele quisera fazer as pazes e pedir desculpa ao pai, mas não conseguira. Agora, ia fazer-lhe a última despedida.

 

Guedes de Dion, com esta história, que pode ser lida no slideshare acima, mostra como funcionaria uma redacção de rádio, assente em serviço de notícias e reportagens. Guedes de Dion seria, naquela época, produtor radiofónico. Há um som de reportagem sua que pode ser ouvido aqui.
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Guedes de Dion

Manuel Eduardo José Guedes Coelho Moreno Dion nasceu em Abril de 1922 em Lisboa. Adoptou o nome profissional de Guedes de Dion. Em 1950, publicou um livro intitulado Pedras de Fogo e Cinza, um interessante conjunto de contos que eu, na sua leitura, procurei desconstruir. O meu objectivo era compreender como se vivia em Lisboa naquela época.

São onze contos. O primeiro chama-se "Reportagem na Europa" e conta a história de um jornalista que viaja de navio dos Estados Unidos para a Europa e que lhe é dado conhecer um passageiro que procura encontrar a sua mulher em Espanha, que o havia abandonado e fugido com outro homem. "Carta para Lisboa", a segunda história, descreve a presença de um caixeiro-viajante no Alentejo e o seu conhecimento de uma família em cuja casa pernoita nesse dia e recebe o pedido da jovem adulta desse lar para ser portador de uma carta para o seu marido, então a trabalhar em Lisboa. O penúltimo conto, "Madrugada no casino", narra a história de um homem que, todas as noites, joga e perde muito dinheiro no casino e paga refeições a um número crescente de "amigos". As mulheres também o rodeiam. No final, o "engenheiro", como gostava que o tratassem, saiu do casino, acompanhado de dois polícias. Era, afinal, um burlão. Uma das histórias mais marcantes do livro é a que dá pelo título "O telefone tocou às 5", em que duas mulheres conversam, ou melhor, criticam a pequena alta sociedade em que se inserem. O conto é um retrato da frivolidade de uma camada social da Lisboa de 1950.

Mas o que me levou a escrever sobre o livro de um autor esquecido é o seu último conto: "Noticiário das Dez". O autor narra a história de Jorge, seu velho camarada da escola básica e do reencontro entre ambos quinze anos depois, já homens feitos e com uma história de vida completa. Jorge gastara mal muito dinheiro do seu pai, que o expulsou de casa e, com isso, o obrigou a uma árdua vida de trabalho. Empregado de mesa num paquete, quando regressou a Lisboa, procurou um novo emprego. Como que por milagre apareceu-lhe um lugar na secretaria de uma estação de rádio. Vencimento mensal: novecentos e cinquenta escudos. Rapidamente, as suas qualidades vieram ao de cima e concorreu e obteve um lugar de locutor na mesma estação. A prova de acesso ao lugar consistia em ler um texto em português, em francês e em inglês. Empregado de mesa habituado a servir gente de muitos países, as provas sairam-lhe muito bem. Pouco tempo depois, subia mais um degrau na responsabilidade da estação de rádio, em especial os serviços de exterior. No ano de 1945, um dos acontecimentos internos mais importantes seria uma cheia no Ribatejo, o que o obrigou a deslocar-se à lezíria para fazer a reportagem. Chegado à estação, todo molhado e sem ter jantado, ele ia ler o noticiário das dez, mas o director dispensou-o, passando o serviço a outro colega. Na viagem de táxi de regresso a casa, ele ouvia, pela voz do seu colega, que o seu pai, então administrador-geral do Banco Imperial, falecera. Desde que começara a trabalhar na rádio, ele quisera fazer as pazes e pedir desculpa ao pai, mas não conseguira. Agora, ia fazer-lhe a última despedida.

 

Guedes de Dion, com esta história, que pode ser lida no slideshare acima, mostra como funcionaria uma redacção de rádio, assente em serviço de notícias e reportagens. Guedes de Dion seria, naquela época, produtor radiofónico. Há um som de reportagem sua que pode ser ouvido aqui.
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Manuel Eduardo José Guedes Coelho Moreno Dion nasceu em Abril de 1922 em Lisboa. Adoptou o nome profissional de Guedes de Dion. Em 1950, publicou um livro intitulado Pedras de Fogo e Cinza, um interessante conjunto de contos que eu, na sua leitura, procurei desconstruir. O meu objectivo era compreender como se vivia em Lisboa naquela época.

São onze contos. O primeiro chama-se "Reportagem na Europa" e conta a história de um jornalista que viaja de navio dos Estados Unidos para a Europa e que lhe é dado conhecer um passageiro que procura encontrar a sua mulher em Espanha, que o havia abandonado e fugido com outro homem. "Carta para Lisboa", a segunda história, descreve a presença de um caixeiro-viajante no Alentejo e o seu conhecimento de uma família em cuja casa pernoita nesse dia e recebe o pedido da jovem adulta desse lar para ser portador de uma carta para o seu marido, então a trabalhar em Lisboa. O penúltimo conto, "Madrugada no casino", narra a história de um homem que, todas as noites, joga e perde muito dinheiro no casino e paga refeições a um número crescente de "amigos". As mulheres também o rodeiam. No final, o "engenheiro", como gostava que o tratassem, saiu do casino, acompanhado de dois polícias. Era, afinal, um burlão. Uma das histórias mais marcantes do livro é a que dá pelo título "O telefone tocou às 5", em que duas mulheres conversam, ou melhor, criticam a pequena alta sociedade em que se inserem. O conto é um retrato da frivolidade de uma camada social da Lisboa de 1950.

Mas o que me levou a escrever sobre o livro de um autor esquecido é o seu último conto: "Noticiário das Dez". O autor narra a história de Jorge, seu velho camarada da escola básica e do reencontro entre ambos quinze anos depois, já homens feitos e com uma história de vida completa. Jorge gastara mal muito dinheiro do seu pai, que o expulsou de casa e, com isso, o obrigou a uma árdua vida de trabalho. Empregado de mesa num paquete, quando regressou a Lisboa, procurou um novo emprego. Como que por milagre apareceu-lhe um lugar na secretaria de uma estação de rádio. Vencimento mensal: novecentos e cinquenta escudos. Rapidamente, as suas qualidades vieram ao de cima e concorreu e obteve um lugar de locutor na mesma estação. A prova de acesso ao lugar consistia em ler um texto em português, em francês e em inglês. Empregado de mesa habituado a servir gente de muitos países, as provas sairam-lhe muito bem. Pouco tempo depois, subia mais um degrau na responsabilidade da estação de rádio, em especial os serviços de exterior. No ano de 1945, um dos acontecimentos internos mais importantes seria uma cheia no Ribatejo, o que o obrigou a deslocar-se à lezíria para fazer a reportagem. Chegado à estação, todo molhado e sem ter jantado, ele ia ler o noticiário das dez, mas o director dispensou-o, passando o serviço a outro colega. Na viagem de táxi de regresso a casa, ele ouvia, pela voz do seu colega, que o seu pai, então administrador-geral do Banco Imperial, falecera. Desde que começara a trabalhar na rádio, ele quisera fazer as pazes e pedir desculpa ao pai, mas não conseguira. Agora, ia fazer-lhe a última despedida.

 

Guedes de Dion, com esta história, que pode ser lida no slideshare acima, mostra como funcionaria uma redacção de rádio, assente em serviço de notícias e reportagens. Guedes de Dion seria, naquela época, produtor radiofónico. Há um som de reportagem sua que pode ser ouvido aqui.
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Quarta-feira, 5 de Março de 2014

Letras & Rádio


"Hei-de correr por todos esses campos, como se fosse rapariguita, e roubar fruta em todas as herdades. Hei-de colher flores aos braçados e levá-las ao Senhor Padre António para o altar do Santíssimo. Senhor! Há lá nada mais bonito do que os campos pela Primavera! Hei-de também levar os filhos da Engrácia à Fonte Nova, para comermos amoras e trazer para casa uns dois ou três cabazitos bem cheios. Farei doce e com a amora mais graúda encherei uns cestos maneirinhos para ofertar a quem se deva algum favor" (p. 131).

"Numa Primavera de luz suave, o mundo não esperou mais, porque ela tinha dezanove anos, um olhar assustado, um corpo irrequieto, e havia a força estranha das coisas desconhecidas a abrir caminho, o caminho mais ou menos tortuoso de cada um" (p. 59).

"Conheci-o num garden-party de Edith Grey, como afinal o podia ter conhecido à beira-rio, junto daqueles pequenos vendedores ambulantes, num antiquário da Rua de S. Bento, ou em qualquer teatro de revista. Mas isto só o compreendi mais tarde, e ainda mais tarde o ousei confessar" (p. 42).

"Corro e a minha saia tem cintilações vistosas. Ele segura-me pela cintura e rimos. À nossa esquerda, uma alegre barraca pintada de verde com uma grande árvore fazendo sombra às pequenas mesas de madeira tosca. Sentamo-nos. Ah! Cerveja fresquinha! Que bom! E farturas acabadas de fazer, com muito açúcar e canela" (p. 33).

"O claxon voltou a tocar. Peguei então na bolsa que estava sobre o leito e lancei em redor um olhar cansado. Não poderia abandonar todas aquelas coisas em que vivera durante alguns anos sem mágoa. O nosso quarto!... A nossa casa!... Os nossos filhos!... Abandonar!... Não há palavras que exprimam certos estados de alma. Há apenas estados de alma que a alguns é dado suportar... Ele foi o homem que casou comigo. E, como tal, deu-me uma casa, dois filhos, um automóvel, criadas, algumas viagens... enfim, o que todos os maridos dão ou procuram dar às mulheres. Mas, em troca, eu não sei o que lhe dei" (p. 95).

"De súbito, julgo que vou rir também, que sou capaz de trautear uma canção em voga, que sou capaz de desnudar os ombros, de conquistar os homens, de arrebatar a Primavera e de me encontrar outra num sítio diferente. Ali, naqueles cabarets, há muitas que passaram a ser outras... E eu sinto o Destino quebrar-se em mim, na síncope do meu coração desnorteado. Mas avanço exaltada pela mesma insatisfação que me deslumbra! Uma porta abre-se e batem-me no rosto as notas vibrantes de uma melodia e o cheiro acre de tabaco e de gente. O fumo envolve-me. Um calor imenso inunda-me a fronte. E assalta-me uma necessidade inadiável de beber. Vou entrar, vou beber, vou rir e chorar e ser para todo o sempre a sombra de mim própria. Um homem passa e dá-me um encontrão. Ao fundo, uma mulher pintada chama-o. Fujo" (pp. 166-167).

Maria Irene Dionísio publicou Adeus, Amigo!... em 1960, resultado de prémio atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), então liderado por César Moreira Baptista. António Quadros, no prefácio, dá indicações preciosas sobre o livro de contos: "Dir-se-á que as qualidades de Maria Irene Dionísio ainda não amadureceram por completo; que, atraída pela sua grande facilidade. deixa às vezes resvalar a sua linguagem para o lugar comum; que os contos podiam ser mais seleccionados pois nem todos possuem a mesma altura".

Da autora, não conheço mais nenhuma obra. Esta é certamente de juventude. Nem sei bem o seu percurso pelo teatro e pelo teatro radiofónico. Na fotografia, Maria Irene Dionísio contracena com Manuel Lereno, uma representação evocativa do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor na Emissora Nacional, ao lado de actores conhecidos como Carmen Dolores, Jaime Santos, Álvaro Benamor, Luís Filipe, Isabel Wolmar, João Perry, Júlia Santos, Luís Santos, Varela Silva, António Sarmento, Odete André e Mário Sargedas (Flama, 16 de Maio de 1958).
publicado por industrias-culturais às 08:42
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"Hei-de correr por todos esses campos, como se fosse rapariguita, e roubar fruta em todas as herdades. Hei-de colher flores aos braçados e levá-las ao Senhor Padre António para o altar do Santíssimo. Senhor! Há lá nada mais bonito do que os campos pela Primavera! Hei-de também levar os filhos da Engrácia à Fonte Nova, para comermos amoras e trazer para casa uns dois ou três cabazitos bem cheios. Farei doce e com a amora mais graúda encherei uns cestos maneirinhos para ofertar a quem se deva algum favor" (p. 131).

"Numa Primavera de luz suave, o mundo não esperou mais, porque ela tinha dezanove anos, um olhar assustado, um corpo irrequieto, e havia a força estranha das coisas desconhecidas a abrir caminho, o caminho mais ou menos tortuoso de cada um" (p. 59).

"Conheci-o num garden-party de Edith Grey, como afinal o podia ter conhecido à beira-rio, junto daqueles pequenos vendedores ambulantes, num antiquário da Rua de S. Bento, ou em qualquer teatro de revista. Mas isto só o compreendi mais tarde, e ainda mais tarde o ousei confessar" (p. 42).

"Corro e a minha saia tem cintilações vistosas. Ele segura-me pela cintura e rimos. À nossa esquerda, uma alegre barraca pintada de verde com uma grande árvore fazendo sombra às pequenas mesas de madeira tosca. Sentamo-nos. Ah! Cerveja fresquinha! Que bom! E farturas acabadas de fazer, com muito açúcar e canela" (p. 33).

"O claxon voltou a tocar. Peguei então na bolsa que estava sobre o leito e lancei em redor um olhar cansado. Não poderia abandonar todas aquelas coisas em que vivera durante alguns anos sem mágoa. O nosso quarto!... A nossa casa!... Os nossos filhos!... Abandonar!... Não há palavras que exprimam certos estados de alma. Há apenas estados de alma que a alguns é dado suportar... Ele foi o homem que casou comigo. E, como tal, deu-me uma casa, dois filhos, um automóvel, criadas, algumas viagens... enfim, o que todos os maridos dão ou procuram dar às mulheres. Mas, em troca, eu não sei o que lhe dei" (p. 95).

"De súbito, julgo que vou rir também, que sou capaz de trautear uma canção em voga, que sou capaz de desnudar os ombros, de conquistar os homens, de arrebatar a Primavera e de me encontrar outra num sítio diferente. Ali, naqueles cabarets, há muitas que passaram a ser outras... E eu sinto o Destino quebrar-se em mim, na síncope do meu coração desnorteado. Mas avanço exaltada pela mesma insatisfação que me deslumbra! Uma porta abre-se e batem-me no rosto as notas vibrantes de uma melodia e o cheiro acre de tabaco e de gente. O fumo envolve-me. Um calor imenso inunda-me a fronte. E assalta-me uma necessidade inadiável de beber. Vou entrar, vou beber, vou rir e chorar e ser para todo o sempre a sombra de mim própria. Um homem passa e dá-me um encontrão. Ao fundo, uma mulher pintada chama-o. Fujo" (pp. 166-167).

Maria Irene Dionísio publicou Adeus, Amigo!... em 1960, resultado de prémio atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), então liderado por César Moreira Baptista. António Quadros, no prefácio, dá indicações preciosas sobre o livro de contos: "Dir-se-á que as qualidades de Maria Irene Dionísio ainda não amadureceram por completo; que, atraída pela sua grande facilidade. deixa às vezes resvalar a sua linguagem para o lugar comum; que os contos podiam ser mais seleccionados pois nem todos possuem a mesma altura".

Da autora, não conheço mais nenhuma obra. Esta é certamente de juventude. Nem sei bem o seu percurso pelo teatro e pelo teatro radiofónico. Na fotografia, Maria Irene Dionísio contracena com Manuel Lereno, uma representação evocativa do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor na Emissora Nacional, ao lado de actores conhecidos como Carmen Dolores, Jaime Santos, Álvaro Benamor, Luís Filipe, Isabel Wolmar, João Perry, Júlia Santos, Luís Santos, Varela Silva, António Sarmento, Odete André e Mário Sargedas (Flama, 16 de Maio de 1958).
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"Hei-de correr por todos esses campos, como se fosse rapariguita, e roubar fruta em todas as herdades. Hei-de colher flores aos braçados e levá-las ao Senhor Padre António para o altar do Santíssimo. Senhor! Há lá nada mais bonito do que os campos pela Primavera! Hei-de também levar os filhos da Engrácia à Fonte Nova, para comermos amoras e trazer para casa uns dois ou três cabazitos bem cheios. Farei doce e com a amora mais graúda encherei uns cestos maneirinhos para ofertar a quem se deva algum favor" (p. 131).

"Numa Primavera de luz suave, o mundo não esperou mais, porque ela tinha dezanove anos, um olhar assustado, um corpo irrequieto, e havia a força estranha das coisas desconhecidas a abrir caminho, o caminho mais ou menos tortuoso de cada um" (p. 59).

"Conheci-o num garden-party de Edith Grey, como afinal o podia ter conhecido à beira-rio, junto daqueles pequenos vendedores ambulantes, num antiquário da Rua de S. Bento, ou em qualquer teatro de revista. Mas isto só o compreendi mais tarde, e ainda mais tarde o ousei confessar" (p. 42).

"Corro e a minha saia tem cintilações vistosas. Ele segura-me pela cintura e rimos. À nossa esquerda, uma alegre barraca pintada de verde com uma grande árvore fazendo sombra às pequenas mesas de madeira tosca. Sentamo-nos. Ah! Cerveja fresquinha! Que bom! E farturas acabadas de fazer, com muito açúcar e canela" (p. 33).

"O claxon voltou a tocar. Peguei então na bolsa que estava sobre o leito e lancei em redor um olhar cansado. Não poderia abandonar todas aquelas coisas em que vivera durante alguns anos sem mágoa. O nosso quarto!... A nossa casa!... Os nossos filhos!... Abandonar!... Não há palavras que exprimam certos estados de alma. Há apenas estados de alma que a alguns é dado suportar... Ele foi o homem que casou comigo. E, como tal, deu-me uma casa, dois filhos, um automóvel, criadas, algumas viagens... enfim, o que todos os maridos dão ou procuram dar às mulheres. Mas, em troca, eu não sei o que lhe dei" (p. 95).

"De súbito, julgo que vou rir também, que sou capaz de trautear uma canção em voga, que sou capaz de desnudar os ombros, de conquistar os homens, de arrebatar a Primavera e de me encontrar outra num sítio diferente. Ali, naqueles cabarets, há muitas que passaram a ser outras... E eu sinto o Destino quebrar-se em mim, na síncope do meu coração desnorteado. Mas avanço exaltada pela mesma insatisfação que me deslumbra! Uma porta abre-se e batem-me no rosto as notas vibrantes de uma melodia e o cheiro acre de tabaco e de gente. O fumo envolve-me. Um calor imenso inunda-me a fronte. E assalta-me uma necessidade inadiável de beber. Vou entrar, vou beber, vou rir e chorar e ser para todo o sempre a sombra de mim própria. Um homem passa e dá-me um encontrão. Ao fundo, uma mulher pintada chama-o. Fujo" (pp. 166-167).

Maria Irene Dionísio publicou Adeus, Amigo!... em 1960, resultado de prémio atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), então liderado por César Moreira Baptista. António Quadros, no prefácio, dá indicações preciosas sobre o livro de contos: "Dir-se-á que as qualidades de Maria Irene Dionísio ainda não amadureceram por completo; que, atraída pela sua grande facilidade. deixa às vezes resvalar a sua linguagem para o lugar comum; que os contos podiam ser mais seleccionados pois nem todos possuem a mesma altura".

Da autora, não conheço mais nenhuma obra. Esta é certamente de juventude. Nem sei bem o seu percurso pelo teatro e pelo teatro radiofónico. Na fotografia, Maria Irene Dionísio contracena com Manuel Lereno, uma representação evocativa do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor na Emissora Nacional, ao lado de actores conhecidos como Carmen Dolores, Jaime Santos, Álvaro Benamor, Luís Filipe, Isabel Wolmar, João Perry, Júlia Santos, Luís Santos, Varela Silva, António Sarmento, Odete André e Mário Sargedas (Flama, 16 de Maio de 1958).
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"Hei-de correr por todos esses campos, como se fosse rapariguita, e roubar fruta em todas as herdades. Hei-de colher flores aos braçados e levá-las ao Senhor Padre António para o altar do Santíssimo. Senhor! Há lá nada mais bonito do que os campos pela Primavera! Hei-de também levar os filhos da Engrácia à Fonte Nova, para comermos amoras e trazer para casa uns dois ou três cabazitos bem cheios. Farei doce e com a amora mais graúda encherei uns cestos maneirinhos para ofertar a quem se deva algum favor" (p. 131).

"Numa Primavera de luz suave, o mundo não esperou mais, porque ela tinha dezanove anos, um olhar assustado, um corpo irrequieto, e havia a força estranha das coisas desconhecidas a abrir caminho, o caminho mais ou menos tortuoso de cada um" (p. 59).

"Conheci-o num garden-party de Edith Grey, como afinal o podia ter conhecido à beira-rio, junto daqueles pequenos vendedores ambulantes, num antiquário da Rua de S. Bento, ou em qualquer teatro de revista. Mas isto só o compreendi mais tarde, e ainda mais tarde o ousei confessar" (p. 42).

"Corro e a minha saia tem cintilações vistosas. Ele segura-me pela cintura e rimos. À nossa esquerda, uma alegre barraca pintada de verde com uma grande árvore fazendo sombra às pequenas mesas de madeira tosca. Sentamo-nos. Ah! Cerveja fresquinha! Que bom! E farturas acabadas de fazer, com muito açúcar e canela" (p. 33).

"O claxon voltou a tocar. Peguei então na bolsa que estava sobre o leito e lancei em redor um olhar cansado. Não poderia abandonar todas aquelas coisas em que vivera durante alguns anos sem mágoa. O nosso quarto!... A nossa casa!... Os nossos filhos!... Abandonar!... Não há palavras que exprimam certos estados de alma. Há apenas estados de alma que a alguns é dado suportar... Ele foi o homem que casou comigo. E, como tal, deu-me uma casa, dois filhos, um automóvel, criadas, algumas viagens... enfim, o que todos os maridos dão ou procuram dar às mulheres. Mas, em troca, eu não sei o que lhe dei" (p. 95).

"De súbito, julgo que vou rir também, que sou capaz de trautear uma canção em voga, que sou capaz de desnudar os ombros, de conquistar os homens, de arrebatar a Primavera e de me encontrar outra num sítio diferente. Ali, naqueles cabarets, há muitas que passaram a ser outras... E eu sinto o Destino quebrar-se em mim, na síncope do meu coração desnorteado. Mas avanço exaltada pela mesma insatisfação que me deslumbra! Uma porta abre-se e batem-me no rosto as notas vibrantes de uma melodia e o cheiro acre de tabaco e de gente. O fumo envolve-me. Um calor imenso inunda-me a fronte. E assalta-me uma necessidade inadiável de beber. Vou entrar, vou beber, vou rir e chorar e ser para todo o sempre a sombra de mim própria. Um homem passa e dá-me um encontrão. Ao fundo, uma mulher pintada chama-o. Fujo" (pp. 166-167).

Maria Irene Dionísio publicou Adeus, Amigo!... em 1960, resultado de prémio atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), então liderado por César Moreira Baptista. António Quadros, no prefácio, dá indicações preciosas sobre o livro de contos: "Dir-se-á que as qualidades de Maria Irene Dionísio ainda não amadureceram por completo; que, atraída pela sua grande facilidade. deixa às vezes resvalar a sua linguagem para o lugar comum; que os contos podiam ser mais seleccionados pois nem todos possuem a mesma altura".

Da autora, não conheço mais nenhuma obra. Esta é certamente de juventude. Nem sei bem o seu percurso pelo teatro e pelo teatro radiofónico. Na fotografia, Maria Irene Dionísio contracena com Manuel Lereno, uma representação evocativa do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor na Emissora Nacional, ao lado de actores conhecidos como Carmen Dolores, Jaime Santos, Álvaro Benamor, Luís Filipe, Isabel Wolmar, João Perry, Júlia Santos, Luís Santos, Varela Silva, António Sarmento, Odete André e Mário Sargedas (Flama, 16 de Maio de 1958).
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