Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Encontro de media no Brasil

9º Encontro Nacional de História da Mídia, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), 30 de maio a 1º de junho de 2013, Ouro Preto - MG. Ver mais em www.jornalismo.ufop.br/historiadamidia, www.facebook.com/HistoriaDaMidia, www.twitter.com/historiamidia.

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A recepção dos Doors em Portugal

Os Doors surgiram em 1965 e acabaram em 1971, com a morte de Jim Morrison, o vocalista e alma da banda americana (no formato da banda inicial, que incluía Ray Manzarek nas teclas, Robby Krieger na guitarra e John Densmore na bateria), com influências de diferentes estilos musicais, casos do blues, do jazz, da country music e do movimento psicadélico. O seu impacto mundial foi enorme, marcando de forma inegável a cultura popular e de massa na segunda metade dessa década de 1960 e muito depois.

Rui Pedro Silva, um grande fã da banda e um dos seus mais conceituados biógrafos, escrevera Contigo Torno-me Real (2003). Agora, e depois de uma intensa investigação em Los Angeles, a cidade da banda, com especial incidência nos arquivos da Universidade da Califórnia (UCLA), onde Jim Morrison e Ray Manzarek se conheceram no curso de cinema, publica Caravana Doors. Uma viagem luso-americana (editora Documenta, 2012).

O livro tem duas partes distintas: a primeira dedicada ao percurso dos Doors, a segunda ao seu impacto em Portugal. Retenho a segunda parte do livro, onde o autor faz uma exploração sistemática da imprensa nacional e especializada em busca de ecos e reflexões da banda americana (Jornal de Notícias, Mundo da Canção, A Memória do Elefante, Música & Som, Se7e, Blitz). Numa das publicações, Mundo da Canção (Fevereiro(Março de 1981), era reconhecido o esforço de divulgação da música dos Doors, apresentado como produto de qualidade (p. 195).Mas também realça a passagem da banda na rádio, através dos seus discos (em alguns programas de rádio), casos de Unknown Soldier, pela comparabilidade de situações nos Estados Unidos (guerra do Vietname) e Portugal (guerras coloniais em África), Light My Fire e Strange Days.

Aqui, o programa Em Órbita (Rádio Clube Português) é destacado. Nascido no mesmo ano da banda norte-americana, o programa de Jorge Gil passou exclusivamente música anglo-americana, incluindo os Doors. Em entrevista ao jornal Se7e (16 de Julho de 1980), Gil disse: "A música que passávamos falava dos problemas dos jovens americanos e ingleses, mas não deixava de ter reflexos na realidade portuguesa. Quando se falava na guerra do Vietname estava-se, por via indirecta, a falar na guerra colonial" (p. 191).

Retiro mais alguns dados, a partir de uma entrevista dada por Rui Pedro Silva em 2011: "«Muitas bandas ao longo das décadas assumiram-se fãs incondicionais dos Doors, e algumas em particular do Jim Morrison, mas nenhuma conseguiu chegar ao brilhantismo que os Doors assumiram na música e no casamento da música com a poesia», referiu Rui Pedro Silva, autor do livro Contigo Torno-me Real. O autor, que está a preparar um segundo livro sobre os Doors, salientou que muitos tentaram imitar a banda de Jim Morrison, «mas ficaram muito longe» de conseguirem. «Outros beberam a influência e, de uma forma original, foram criar o seu próprio caminho», afirmou, destacando o caso de Ian Astbury, vocalista dos Cult, que mais tarde veio a ser convidado para representar Jim Morrison na banda que assumiu a designação Doors Século XXI" (Diário de Notícias).

O livro tem uma terceira parte, a de entrevistas e recolhas de opinião com artistas, agentes culturais e profissionais da rádio sobre o impacto da obra dos Doors: Cândido Mota, Ana Cristina Ferrão, António Manuel Ribeiro, Joaquim de Almeida, Tino Navarro, Filipe Mendes (Phil Mendrix), António Garcez, Sérgio Castro, João-Maria Nabais (a quem julgo que pertencem as pp. 394-401, mas não devidamente identificadas, pela densidade narrativa distinta do resto do volume) e outros.

Leitura: Rui Pedro Silva (2012). Caravana Doors. Uma viagem luso-americana. Lisboa: Documenta, 414 p., 24,99 euros
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A recepção dos Doors em Portugal

Os Doors surgiram em 1965 e acabaram em 1971, com a morte de Jim Morrison, o vocalista e alma da banda americana (no formato da banda inicial, que incluía Ray Manzarek nas teclas, Robby Krieger na guitarra e John Densmore na bateria), com influências de diferentes estilos musicais, casos do blues, do jazz, da country music e do movimento psicadélico. O seu impacto mundial foi enorme, marcando de forma inegável a cultura popular e de massa na segunda metade dessa década de 1960 e muito depois.

Rui Pedro Silva, um grande fã da banda e um dos seus mais conceituados biógrafos, escrevera Contigo Torno-me Real (2003). Agora, e depois de uma intensa investigação em Los Angeles, a cidade da banda, com especial incidência nos arquivos da Universidade da Califórnia (UCLA), onde Jim Morrison e Ray Manzarek se conheceram no curso de cinema, publica Caravana Doors. Uma viagem luso-americana (editora Documenta, 2012).

O livro tem duas partes distintas: a primeira dedicada ao percurso dos Doors, a segunda ao seu impacto em Portugal. Retenho a segunda parte do livro, onde o autor faz uma exploração sistemática da imprensa nacional e especializada em busca de ecos e reflexões da banda americana (Jornal de Notícias, Mundo da Canção, A Memória do Elefante, Música & Som, Se7e, Blitz). Numa das publicações, Mundo da Canção (Fevereiro(Março de 1981), era reconhecido o esforço de divulgação da música dos Doors, apresentado como produto de qualidade (p. 195). Mas também realça a passagem da banda na rádio, através dos seus discos (em alguns programas de rádio), casos de Unknown Soldier, pela comparabilidade de situações nos Estados Unidos (guerra do Vietname) e Portugal (guerras coloniais em África), Light My Fire e Strange Days.

Aqui, o programa Em Órbita (Rádio Clube Português) é destacado. Nascido no mesmo ano da banda norte-americana, o programa de Jorge Gil passou exclusivamente música anglo-americana, incluindo os Doors. Em entrevista ao jornal Se7e (16 de Julho de 1980), Gil disse: "A música que passávamos falava dos problemas dos jovens americanos e ingleses, mas não deixava de ter reflexos na realidade portuguesa. Quando se falava na guerra do Vietname estava-se, por via indirecta, a falar na guerra colonial" (p. 191).

Retiro mais alguns dados, a partir de uma entrevista dada por Rui Pedro Silva em 2011: "«Muitas bandas ao longo das décadas assumiram-se fãs incondicionais dos Doors, e algumas em particular do Jim Morrison, mas nenhuma conseguiu chegar ao brilhantismo que os Doors assumiram na música e no casamento da música com a poesia», referiu Rui Pedro Silva, autor do livro Contigo Torno-me Real. O autor, que está a preparar um segundo livro sobre os Doors, salientou que muitos tentaram imitar a banda de Jim Morrison, «mas ficaram muito longe» de conseguirem. «Outros beberam a influência e, de uma forma original, foram criar o seu próprio caminho», afirmou, destacando o caso de Ian Astbury, vocalista dos Cult, que mais tarde veio a ser convidado para representar Jim Morrison na banda que assumiu a designação Doors Século XXI" (Diário de Notícias).

O livro tem uma terceira parte, a de entrevistas e recolhas de opinião com artistas, agentes culturais e profissionais da rádio sobre o impacto da obra dos Doors: Cândido Mota, Ana Cristina Ferrão, António Manuel Ribeiro, Joaquim de Almeida, Tino Navarro, Filipe Mendes (Phil Mendrix), António Garcez, Sérgio Castro, João-Maria Nabais (a quem julgo que pertencem as pp. 394-401, mas não devidamente identificadas, pela densidade narrativa distinta do resto do volume) e outros.

Leitura: Rui Pedro Silva (2012). Caravana Doors. Uma viagem luso-americana. Lisboa: Documenta, 414 p., 24,99 euros
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Os Doors surgiram em 1965 e acabaram em 1971, com a morte de Jim Morrison, o vocalista e alma da banda americana (no formato da banda inicial, que incluía Ray Manzarek nas teclas, Robby Krieger na guitarra e John Densmore na bateria), com influências de diferentes estilos musicais, casos do blues, do jazz, da country music e do movimento psicadélico. O seu impacto mundial foi enorme, marcando de forma inegável a cultura popular e de massa na segunda metade dessa década de 1960 e muito depois.

Rui Pedro Silva, um grande fã da banda e um dos seus mais conceituados biógrafos, escrevera Contigo Torno-me Real (2003). Agora, e depois de uma intensa investigação em Los Angeles, a cidade da banda, com especial incidência nos arquivos da Universidade da Califórnia (UCLA), onde Jim Morrison e Ray Manzarek se conheceram no curso de cinema, publica Caravana Doors. Uma viagem luso-americana (editora Documenta, 2012).

O livro tem duas partes distintas: a primeira dedicada ao percurso dos Doors, a segunda ao seu impacto em Portugal. Retenho a segunda parte do livro, onde o autor faz uma exploração sistemática da imprensa nacional e especializada em busca de ecos e reflexões da banda americana (Jornal de Notícias, Mundo da Canção, A Memória do Elefante, Música & Som, Se7e, Blitz). Numa das publicações, Mundo da Canção (Fevereiro(Março de 1981), era reconhecido o esforço de divulgação da música dos Doors, apresentado como produto de qualidade (p. 195). Mas também realça a passagem da banda na rádio, através dos seus discos (em alguns programas de rádio), casos de Unknown Soldier, pela comparabilidade de situações nos Estados Unidos (guerra do Vietname) e Portugal (guerras coloniais em África), Light My Fire e Strange Days.

Aqui, o programa Em Órbita (Rádio Clube Português) é destacado. Nascido no mesmo ano da banda norte-americana, o programa de Jorge Gil passou exclusivamente música anglo-americana, incluindo os Doors. Em entrevista ao jornal Se7e (16 de Julho de 1980), Gil disse: "A música que passávamos falava dos problemas dos jovens americanos e ingleses, mas não deixava de ter reflexos na realidade portuguesa. Quando se falava na guerra do Vietname estava-se, por via indirecta, a falar na guerra colonial" (p. 191).

Retiro mais alguns dados, a partir de uma entrevista dada por Rui Pedro Silva em 2011: "«Muitas bandas ao longo das décadas assumiram-se fãs incondicionais dos Doors, e algumas em particular do Jim Morrison, mas nenhuma conseguiu chegar ao brilhantismo que os Doors assumiram na música e no casamento da música com a poesia», referiu Rui Pedro Silva, autor do livro Contigo Torno-me Real. O autor, que está a preparar um segundo livro sobre os Doors, salientou que muitos tentaram imitar a banda de Jim Morrison, «mas ficaram muito longe» de conseguirem. «Outros beberam a influência e, de uma forma original, foram criar o seu próprio caminho», afirmou, destacando o caso de Ian Astbury, vocalista dos Cult, que mais tarde veio a ser convidado para representar Jim Morrison na banda que assumiu a designação Doors Século XXI" (Diário de Notícias).

O livro tem uma terceira parte, a de entrevistas e recolhas de opinião com artistas, agentes culturais e profissionais da rádio sobre o impacto da obra dos Doors: Cândido Mota, Ana Cristina Ferrão, António Manuel Ribeiro, Joaquim de Almeida, Tino Navarro, Filipe Mendes (Phil Mendrix), António Garcez, Sérgio Castro, João-Maria Nabais (a quem julgo que pertencem as pp. 394-401, mas não devidamente identificadas, pela densidade narrativa distinta do resto do volume) e outros.

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Rui Pedro Silva, um grande fã da banda e um dos seus mais conceituados biógrafos, escrevera Contigo Torno-me Real (2003). Agora, e depois de uma intensa investigação em Los Angeles, a cidade da banda, com especial incidência nos arquivos da Universidade da Califórnia (UCLA), onde Jim Morrison e Ray Manzarek se conheceram no curso de cinema, publica Caravana Doors. Uma viagem luso-americana (editora Documenta, 2012).

O livro tem duas partes distintas: a primeira dedicada ao percurso dos Doors, a segunda ao seu impacto em Portugal. Retenho a segunda parte do livro, onde o autor faz uma exploração sistemática da imprensa nacional e especializada em busca de ecos e reflexões da banda americana (Jornal de Notícias, Mundo da Canção, A Memória do Elefante, Música & Som, Se7e, Blitz). Numa das publicações, Mundo da Canção (Fevereiro(Março de 1981), era reconhecido o esforço de divulgação da música dos Doors, apresentado como produto de qualidade (p. 195). Mas também realça a passagem da banda na rádio, através dos seus discos (em alguns programas de rádio), casos de Unknown Soldier, pela comparabilidade de situações nos Estados Unidos (guerra do Vietname) e Portugal (guerras coloniais em África), Light My Fire e Strange Days.

Aqui, o programa Em Órbita (Rádio Clube Português) é destacado. Nascido no mesmo ano da banda norte-americana, o programa de Jorge Gil passou exclusivamente música anglo-americana, incluindo os Doors. Em entrevista ao jornal Se7e (16 de Julho de 1980), Gil disse: "A música que passávamos falava dos problemas dos jovens americanos e ingleses, mas não deixava de ter reflexos na realidade portuguesa. Quando se falava na guerra do Vietname estava-se, por via indirecta, a falar na guerra colonial" (p. 191).

Retiro mais alguns dados, a partir de uma entrevista dada por Rui Pedro Silva em 2011: "«Muitas bandas ao longo das décadas assumiram-se fãs incondicionais dos Doors, e algumas em particular do Jim Morrison, mas nenhuma conseguiu chegar ao brilhantismo que os Doors assumiram na música e no casamento da música com a poesia», referiu Rui Pedro Silva, autor do livro Contigo Torno-me Real. O autor, que está a preparar um segundo livro sobre os Doors, salientou que muitos tentaram imitar a banda de Jim Morrison, «mas ficaram muito longe» de conseguirem. «Outros beberam a influência e, de uma forma original, foram criar o seu próprio caminho», afirmou, destacando o caso de Ian Astbury, vocalista dos Cult, que mais tarde veio a ser convidado para representar Jim Morrison na banda que assumiu a designação Doors Século XXI" (Diário de Notícias).

O livro tem uma terceira parte, a de entrevistas e recolhas de opinião com artistas, agentes culturais e profissionais da rádio sobre o impacto da obra dos Doors: Cândido Mota, Ana Cristina Ferrão, António Manuel Ribeiro, Joaquim de Almeida, Tino Navarro, Filipe Mendes (Phil Mendrix), António Garcez, Sérgio Castro, João-Maria Nabais (a quem julgo que pertencem as pp. 394-401, mas não devidamente identificadas, pela densidade narrativa distinta do resto do volume) e outros.

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

O estado do bosque

José Tolentino de Mendonça distribui por cinco personagens a peça O Estado do Bosque (2013): John Wolf, o guia da floresta, Peter Weil e Jacob, mais jovem, os dois caminhantes na floresta, Viviane Mars e o Destino. São sete cenas, em que as diferentes personagens falam e revelam ao leitor como se entra, como se percorre e como se aspira a chegar a um ponto (fim, eterno, paraíso, alegria).

Logo na primeira cena indaga Peter (Pedro) a John (João) do sentido do trilho. John, que é cego, responde não saber pois cada trilho leva a mais do que um sentido. Há aqui uma asserção realista: cego não consegue esclarecer. Há também uma posição simbólica: a vida de cada um tem um sentido, um significado, mas cada indivíduo precisa de a procurar, ou seguir, ou construi-la.

No texto, nota-se a busca, a vontade de obter uma resposta. Diz o cego muito mais à frente (cena seis) que à noite o bosque deixa de ser cegueira: o que vê e o que não vê detectam as mesmas coisas - nada. Nessa cena, o cego (o Tirésias grego) dialoga com o destino, que o interroga porque ele arrasta inocentes para o bosque. O destino insiste em saber o que faz John desde que o sol desce e a escuridão se abate sobre o bosque. O Tirésias do bosque distingue os cheiros, as vozes, os acentos. A revelação, a procura da luz e da fé estão patentes em todo o belo texto do padre Tolentino Mendonça. Na adaptação ao teatro, Luís Miguel Cintra interpreta John e o Destino é uma gravação que dialoga com John e revela essa procura da revelação. Num momento de fragilidade emotiva grande, o actor e encenador sentiu a necessidade de proferir as palavras sagradas do Pai Nosso. Já era evidente esta procura religiosa de Cintra quando encenou Paul Claudel, como escrevi aqui, no começo do ano de 2012.

A Claudel, católico que fez aturadamente a exegese da Bíblia, Luís Miguel Cintra acrescentou outro autor, Pier Paolo Pasolini, poeta e cineasta maldito, marxista e homossexual, que dedicou um filme ao Papa João XXIII e protestou contra a dessacralização da vida. Para o ator e encenador, O Estado do Bosque é uma revisitação abstrata do Auto da Alma de Gil Vicente. Revejo o dispositivo cénico (de Cristina Reis): um centro em que o cego recebe e fala com Peter (Nuno Nunes), Jacob (David Granada) e Vivienne (Viviane) Mars (Vera Barreto), um rectângulo de luz sobre o chão, um poço atrás, um lugar onde os actores permanecem e se deslocam por detrás da formação de cadeiras em roda desse centro e onde se sentam os espectadores. Essa intimidade, essa proximidade, essa multiplicidade de pontos de vista dos espectadores, leva-os a compreender melhor o sentido dos gestos, silêncios, lamentos e interrogações - a revelação.

Num pequeno texto, o autor da peça lembra-nos que a religião não é apenas uma questão de igrejas e de padres, mas é verdadeira se for uma coisa humana. Deus não habita num passado distante chamado Bíblia, continua Tolentino Mendonça, mas existe, é atual. O Estado do Bosque é essa recondução ao lugar.

Leitura: José Tolentino de Mendonça (2013). O Estado do Bosque. Lisboa: Assírio & Alvim, 67 p. 10 €
Peça: Teatro da Cornucópia, Bairro Alto, Lisboa, 15 €
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O estado do bosque

José Tolentino de Mendonça distribui por cinco personagens a peça O Estado do Bosque (2013): John Wolf, o guia da floresta, Peter Weil e Jacob, mais jovem, os dois caminhantes na floresta, Viviane Mars e o Destino. São sete cenas, em que as diferentes personagens falam e revelam ao leitor como se entra, como se percorre e como se aspira a chegar a um ponto (fim, eterno, paraíso, alegria).

Logo na primeira cena indaga Peter (Pedro) a John (João) do sentido do trilho. John, que é cego, responde não saber pois cada trilho leva a mais do que um sentido. Há aqui uma asserção realista: cego não consegue esclarecer. Há também uma posição simbólica: a vida de cada um tem um sentido, um significado, mas cada indivíduo precisa de a procurar, ou seguir, ou construi-la.

No texto, nota-se a busca, a vontade de obter uma resposta. Diz o cego muito mais à frente (cena seis) que à noite o bosque deixa de ser cegueira: o que vê e o que não vê detectam as mesmas coisas - nada. Nessa cena, o cego (o Tirésias grego) dialoga com o destino, que o interroga porque ele arrasta inocentes para o bosque. O destino insiste em saber o que faz John desde que o sol desce e a escuridão se abate sobre o bosque. O Tirésias do bosque distingue os cheiros, as vozes, os acentos. A revelação, a procura da luz e da fé estão patentes em todo o belo texto do padre Tolentino Mendonça. Na adaptação ao teatro, Luís Miguel Cintra interpreta John e o Destino é uma gravação que dialoga com John e revela essa procura da revelação. Num momento de fragilidade emotiva grande, o actor e encenador sentiu a necessidade de proferir as palavras sagradas do Pai Nosso. Já era evidente esta procura religiosa de Cintra quando encenou Paul Claudel, como escrevi aqui, no começo do ano de 2012.

A Claudel, católico que fez aturadamente a exegese da Bíblia, Luís Miguel Cintra acrescentou outro autor, Pier Paolo Pasolini, poeta e cineasta maldito, marxista e homossexual, que dedicou um filme ao Papa João XXIII e protestou contra a dessacralização da vida. Para o ator e encenador, O Estado do Bosque é uma revisitação abstrata do Auto da Alma de Gil Vicente. Revejo o dispositivo cénico (de Cristina Reis): um centro em que o cego recebe e fala com Peter (Nuno Nunes), Jacob (David Granada) e Vivienne (Viviane) Mars (Vera Barreto), um rectângulo de luz sobre o chão, um poço atrás, um lugar onde os actores permanecem e se deslocam por detrás da formação de cadeiras em roda desse centro e onde se sentam os espectadores. Essa intimidade, essa proximidade, essa multiplicidade de pontos de vista dos espectadores, leva-os a compreender melhor o sentido dos gestos, silêncios, lamentos e interrogações - a revelação.

Num pequeno texto, o autor da peça lembra-nos que a religião não é apenas uma questão de igrejas e de padres, mas é verdadeira se for uma coisa humana. Deus não habita num passado distante chamado Bíblia, continua Tolentino Mendonça, mas existe, é atual. O Estado do Bosque é essa recondução ao lugar.

Leitura: José Tolentino de Mendonça (2013). O Estado do Bosque. Lisboa: Assírio & Alvim, 67 p. 10 €
Peça: Teatro da Cornucópia, Bairro Alto, Lisboa, 15 €
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