Quarta-feira, 29 de Setembro de 2004

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SOBRE OS CULTURAL STUDIES (CONT.)

Codificação/descodificação

Neste blogue, já chamei a atenção para um livro de Stuart Hall, um dos pais fundadores dos cultural studies, editado o ano passado no Brasil, com o título Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Vou agora seguir uma entrevista por ele dada e publicada na mesma obra, em que Hall destaca a génese do artigo, apresentado num colóquio da Universidade de Leicester, onde vigoravam modelos empíricos tradicionais como a análise de conteúdo e a pesquisa dos efeitos na audiência.

Teve, pois, um primeiro sentido provocatório, o qual considera que qualquer mensagem não tem um aspecto transparente, único, como ensina a teoria matemática da informação. O segundo sentido vem na sequência, e é o do contexto político. Trata-se da ideia que o significado não é fixo, não existindo uma lógica determinante que permita decifrar o significado. O sentido passa a ser multirreferencial, num reflexo directo da influência da semiótica nos cultural studies.

Hall acha que o lado da descodificação está formulado de modo bem inferior ao da codificação. O que ele tentou fazer foi trabalhar a noção de que não existe um significado fixo único. Assim, não haverá uma leitura fixa. Depois, há o oposto disto, a leitura oposicionista, que entende ou não o sentido preferido na construção da mensagem, mas retira do texto exactamente o oposto. Finalmente, ele fala do sentido negocial, que quer dizer um número diferente de posições (de interpretação). As leituras negociadas serão, provavelmente, as de maior número e elaboradas na maior parte do tempo.

O que constituem as audiências? Estas compartilham alguns referenciais do entendimento e da interpretação, alguns referenciais de leitura. Ler nesse sentido não é apenas o indivíduo dos "usos e gratificações". Não se trata de uma leitura puramente subjectiva: ela é compartilhada, possui uma expressão institucional, relaciona-se com o facto de que uma pessoa faz parte de uma instituição.

Tal leva Stuart Hall a falar em leitura preferencial. Ela é um modo determinante, quer dizer que, se uma pessoa detém o controlo dos aparelhos de significação do mundo e o controlo dos meios de comunicação, essa pessoa escreve os textos. Mas uma leitura preferida nunca é completamente bem sucedida - permanece um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a leitura da audiência. E conclui que se uma pessoa tem uma leitura preferencial isso quer dizer que já pré-estruturou as descodificações que provavelmente conseguirá.
publicado por industrias-culturais às 13:35
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Neste blogue, já chamei a atenção para um livro de Stuart Hall, um dos pais fundadores dos cultural studies, editado o ano passado no Brasil, com o título Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Vou agora seguir uma entrevista por ele dada e publicada na mesma obra, em que Hall destaca a génese do artigo, apresentado num colóquio da Universidade de Leicester, onde vigoravam modelos empíricos tradicionais como a análise de conteúdo e a pesquisa dos efeitos na audiência.

Teve, pois, um primeiro sentido provocatório, o qual considera que qualquer mensagem não tem um aspecto transparente, único, como ensina a teoria matemática da informação. O segundo sentido vem na sequência, e é o do contexto político. Trata-se da ideia que o significado não é fixo, não existindo uma lógica determinante que permita decifrar o significado. O sentido passa a ser multirreferencial, num reflexo directo da influência da semiótica nos cultural studies.

Hall acha que o lado da descodificação está formulado de modo bem inferior ao da codificação. O que ele tentou fazer foi trabalhar a noção de que não existe um significado fixo único. Assim, não haverá uma leitura fixa. Depois, há o oposto disto, a leitura oposicionista, que entende ou não o sentido preferido na construção da mensagem, mas retira do texto exactamente o oposto. Finalmente, ele fala do sentido negocial, que quer dizer um número diferente de posições (de interpretação). As leituras negociadas serão, provavelmente, as de maior número e elaboradas na maior parte do tempo.

O que constituem as audiências? Estas compartilham alguns referenciais do entendimento e da interpretação, alguns referenciais de leitura. Ler nesse sentido não é apenas o indivíduo dos "usos e gratificações". Não se trata de uma leitura puramente subjectiva: ela é compartilhada, possui uma expressão institucional, relaciona-se com o facto de que uma pessoa faz parte de uma instituição.

Tal leva Stuart Hall a falar em leitura preferencial. Ela é um modo determinante, quer dizer que, se uma pessoa detém o controlo dos aparelhos de significação do mundo e o controlo dos meios de comunicação, essa pessoa escreve os textos. Mas uma leitura preferida nunca é completamente bem sucedida - permanece um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a leitura da audiência. E conclui que se uma pessoa tem uma leitura preferencial isso quer dizer que já pré-estruturou as descodificações que provavelmente conseguirá.
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Teve, pois, um primeiro sentido provocatório, o qual considera que qualquer mensagem não tem um aspecto transparente, único, como ensina a teoria matemática da informação. O segundo sentido vem na sequência, e é o do contexto político. Trata-se da ideia que o significado não é fixo, não existindo uma lógica determinante que permita decifrar o significado. O sentido passa a ser multirreferencial, num reflexo directo da influência da semiótica nos cultural studies.

Hall acha que o lado da descodificação está formulado de modo bem inferior ao da codificação. O que ele tentou fazer foi trabalhar a noção de que não existe um significado fixo único. Assim, não haverá uma leitura fixa. Depois, há o oposto disto, a leitura oposicionista, que entende ou não o sentido preferido na construção da mensagem, mas retira do texto exactamente o oposto. Finalmente, ele fala do sentido negocial, que quer dizer um número diferente de posições (de interpretação). As leituras negociadas serão, provavelmente, as de maior número e elaboradas na maior parte do tempo.

O que constituem as audiências? Estas compartilham alguns referenciais do entendimento e da interpretação, alguns referenciais de leitura. Ler nesse sentido não é apenas o indivíduo dos "usos e gratificações". Não se trata de uma leitura puramente subjectiva: ela é compartilhada, possui uma expressão institucional, relaciona-se com o facto de que uma pessoa faz parte de uma instituição.

Tal leva Stuart Hall a falar em leitura preferencial. Ela é um modo determinante, quer dizer que, se uma pessoa detém o controlo dos aparelhos de significação do mundo e o controlo dos meios de comunicação, essa pessoa escreve os textos. Mas uma leitura preferida nunca é completamente bem sucedida - permanece um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a leitura da audiência. E conclui que se uma pessoa tem uma leitura preferencial isso quer dizer que já pré-estruturou as descodificações que provavelmente conseguirá.
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Teve, pois, um primeiro sentido provocatório, o qual considera que qualquer mensagem não tem um aspecto transparente, único, como ensina a teoria matemática da informação. O segundo sentido vem na sequência, e é o do contexto político. Trata-se da ideia que o significado não é fixo, não existindo uma lógica determinante que permita decifrar o significado. O sentido passa a ser multirreferencial, num reflexo directo da influência da semiótica nos cultural studies.

Hall acha que o lado da descodificação está formulado de modo bem inferior ao da codificação. O que ele tentou fazer foi trabalhar a noção de que não existe um significado fixo único. Assim, não haverá uma leitura fixa. Depois, há o oposto disto, a leitura oposicionista, que entende ou não o sentido preferido na construção da mensagem, mas retira do texto exactamente o oposto. Finalmente, ele fala do sentido negocial, que quer dizer um número diferente de posições (de interpretação). As leituras negociadas serão, provavelmente, as de maior número e elaboradas na maior parte do tempo.

O que constituem as audiências? Estas compartilham alguns referenciais do entendimento e da interpretação, alguns referenciais de leitura. Ler nesse sentido não é apenas o indivíduo dos "usos e gratificações". Não se trata de uma leitura puramente subjectiva: ela é compartilhada, possui uma expressão institucional, relaciona-se com o facto de que uma pessoa faz parte de uma instituição.

Tal leva Stuart Hall a falar em leitura preferencial. Ela é um modo determinante, quer dizer que, se uma pessoa detém o controlo dos aparelhos de significação do mundo e o controlo dos meios de comunicação, essa pessoa escreve os textos. Mas uma leitura preferida nunca é completamente bem sucedida - permanece um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a leitura da audiência. E conclui que se uma pessoa tem uma leitura preferencial isso quer dizer que já pré-estruturou as descodificações que provavelmente conseguirá.
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Teve, pois, um primeiro sentido provocatório, o qual considera que qualquer mensagem não tem um aspecto transparente, único, como ensina a teoria matemática da informação. O segundo sentido vem na sequência, e é o do contexto político. Trata-se da ideia que o significado não é fixo, não existindo uma lógica determinante que permita decifrar o significado. O sentido passa a ser multirreferencial, num reflexo directo da influência da semiótica nos cultural studies.



Hall acha que o lado da descodificação está formulado de modo bem inferior ao da codificação. O que ele tentou fazer foi trabalhar a noção de que não existe um significado fixo único. Assim, não haverá uma leitura fixa. Depois, há o oposto disto, a leitura oposicionista, que entende ou não o sentido preferido na construção da mensagem, mas retira do texto exactamente o oposto. Finalmente, ele fala do sentido negocial, que quer dizer um número diferente de posições (de interpretação). As leituras negociadas serão, provavelmente, as de maior número e elaboradas na maior parte do tempo.



O que constituem as audiências? Estas compartilham alguns referenciais do entendimento e da interpretação, alguns referenciais de leitura. Ler nesse sentido não é apenas o indivíduo dos "usos e gratificações". Não se trata de uma leitura puramente subjectiva: ela é compartilhada, possui uma expressão institucional, relaciona-se com o facto de que uma pessoa faz parte de uma instituição.



Tal leva Stuart Hall a falar em leitura preferencial. Ela é um modo determinante, quer dizer que, se uma pessoa detém o controlo dos aparelhos de significação do mundo e o controlo dos meios de comunicação, essa pessoa escreve os textos. Mas uma leitura preferida nunca é completamente bem sucedida - permanece um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a leitura da audiência. E conclui que se uma pessoa tem uma leitura preferencial isso quer dizer que já pré-estruturou as descodificações que provavelmente conseguirá.

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Terça-feira, 28 de Setembro de 2004

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SOBRE OS CULTURAL STUDIES

Os franceses Armand Mattelart e Érik Neveu têm escrito sobre o movimento dos cultural studies, de origem inglesa.

cs1.JPGcs2.JPG

A primeira empresa sobre a matéria que eu conheço deles foi publicada na prestigiada revista Réseaux, em Novembro-Dezembro de 1966, com a elaboração de um bem fundamentado dossier, aliás indicado na capa. São quase 40 páginas de análise, assinada pelos dois professores, a que se seguem outros textos escritos por Phil Cohen, Dick Hebdige, David Chaney e Raymond Williams (que polarizariam algumas das ideias principais dos estudos culturais) e Brigitte Le Grignou.

Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.

Um centro de investigação em Birmingham

Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.

Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.

Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.

Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.

Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.
publicado por industrias-culturais às 07:45
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Os franceses Armand Mattelart e Érik Neveu têm escrito sobre o movimento dos cultural studies, de origem inglesa.

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A primeira empresa sobre a matéria que eu conheço deles foi publicada na prestigiada revista Réseaux, em Novembro-Dezembro de 1966, com a elaboração de um bem fundamentado dossier, aliás indicado na capa. São quase 40 páginas de análise, assinada pelos dois professores, a que se seguem outros textos escritos por Phil Cohen, Dick Hebdige, David Chaney e Raymond Williams (que polarizariam algumas das ideias principais dos estudos culturais) e Brigitte Le Grignou.

Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.

Um centro de investigação em Birmingham

Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.

Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.

Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.

Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.

Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.
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Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.

Um centro de investigação em Birmingham

Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.

Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.

Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.

Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.

Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.
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Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.

Um centro de investigação em Birmingham

Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.

Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.

Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.

Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.

Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.
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Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.


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Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.


Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.


Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.


Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.


Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.
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